segunda-feira, 4 de junho de 2012


Não. Não quero mais viver. Simplesmente não me apetece. De nada me vale prevalecer dentro desta angústia, agonizando em um lago extenso de solidão. Não sonho com noites quentes de verão. Sou toda invernos, sou outonos, caem-me as folhas, desmorono inteira eu. E nada mais sou capaz de compreender. Mesmo toda a mais bela alegria vem em mim ser dor.
                Não. Não quero mais viver. Não me vale nada a vida em tal extrema ilusão, longe de toda e qualquer lucidez, desprovida de qualquer compreensão. Mesmo se brilha o mais alegre sol lá fora, cá dentro, chove. Vivo em uma eterna insolução. Está nublado em mim o tempo, e não me chegarão coloridos arcos, pois o pacto selado com o supremo foi já em mim há muito quebrado.
                Não. Não me apetece mais viver. Não em um mundo onde tu não estás, onde não há teu cheiro, tua voz, onde a música não é o bastante para alimentar-me corpo e alma. Não em um mundo onde tempo e distâncias sejam titãs, déspotas não esclarecidos. Ando corrupta, pois só encontro horrendos significados no belo, e isso, isso é imperdoável.
                Não. Não quero mais. Simplesmente não quero e pouco importa o que. O que aqui conta é só mesmo o próprio não querer. O que há em mim é sobretudo o cansaço, e esta melancolia morna e cinzenta ainda me há de fazer sucumbir. Não, já não sou nada, meu amor, e sem ti nem quero ser. Embora guarde em mim todos os sonhos do mundo, sou completamente composta pelo não querer.  

                                                                                                                                        Amanda Magnani

Nenhum comentário:

Postar um comentário