É...
E assim a vida segue seu curso. Quando finalmente pensamos tê-lo superado, sai
da boca amiga o veneno de palavras deveras inocentes que não foram,
definitivamente, pronunciadas com esse fim. Mais uma vez cai-se ao chão. É mais
uma vez o fim. E a motivação para sacudir a poeira e dar a volta por cima é
cada vez menor, quando vê-se diante de uma rua sem saída, do irremediável que é
o tempo. Mal sabe Pessoa quão certo estava ao dizer que “não só quem nos odeia
ou nos inveja nos limita e oprime; quem nos ama não menos nos limita”. Ah, pois
sabe. É claro que sabe. Saberá até mais que eu. O que não foi dito, no entanto,
é que quem nos ama, além de nos não menos limitar, nos mais oprime.
As
agridoces palavras de quem nos ama são mais amargas. Corroem-nos por dentro com
mais facilidade, por terem maior acesso a nossos interiores. Ah, como dói, como
me dói. E além de tudo, dói em mim doer-te. Não fizestes de propósito, bem sei,
assim como não o faço eu. Não quero doer-te. Entretanto, dói-me tanto, que sou
no momento incapaz de sentir-me feliz por ti, ou culpada e triste pela dor que
te causo. Sei que não quisestes mais que fazer-me feliz, compartilhando da tua
doce felicidade comigo.
Doce
felicidade ao sair de tua boca, e amargura ao alcançar meus ouvidos, porta do coração.
Não quero que sejas menos feliz, ou que sejas triste. De forma alguma. Não quero
que te sintas culpada, pois esta culpa refletir-se-ia em mim. Entendas que te
amo, mas que tua felicidade dói-me. Sou levada a embriagar-me de meu próprio
ópio, nadando em minha dor, e por sabê-la também tua, pela solidariedade que
tens comigo de teu amor fiel, chega a fazer-me odiar-te e corroer-me a
consciência de culpa por esta razão.
Amo-te
e te quero feliz. Mas tua felicidade dói-me. Não a dor do poeta fingidor, não a
dor que deveras sente, não as que ele teve ou a que ninguém tem. A minha dor.
Dor doída de doer-te. Porque te amo dói-me e porque me amas dói-te. Dor doída
de doer-nos mutuamente. Quem sou eu para culpar-te? Mais culpa tenho eu. Amo-te
e te quero feliz, mas agora preciso-te longe, para saber-me, para ser. Também
quero amar-me e querer-me feliz.
Não
foi erro cometido te haveres feito o que fizestes. Tampouco haveres me contado.
Não erro cometido teu de ação; erro cometido nosso na interlocução. Não que devesses
tê-lo feito diferente. Não me dói o teu sucesso, e sim sua total compatibilidade
com meu fracasso. Apoio-me em minha própria melancolia. Dói-me o fato de
palavras tão docemente enunciadas, que em outro momento seriam-me dignas de
regozijo, me agora tanto doerem. Não cometestes erro nenhum. O erro reside em
mim. Teu erro talvez tenha sido amar-me, sem contar com a presença de tamanha
inveja dentro de mim. Não me entendas mal. Não te desejaria que fosse para ti
diferente do que aconteceu. Entretanto entendas que realizastes meu sonho, algo
do qual não fui capaz. Não te sintas culpada, rogo-te. Mas compreenda-me. Sei
que há tempo não nos víamos. Ainda assim, preciso agora de uma momentânea distância
de ti. Não desistas de mim. Talvez isso tudo um dia passe. Quem sabe se, um
dia, não serei realmente capaz de conviver com este fracasso, e perceber que
foi tudo melhor assim?
Não
é fácil, me entendas. E ainda assim, no auge de meu injusto rancor, rogo-te
perdão. Sei que, em verdade, te amo e não tenho o direito de sentir-me assim.
Entretanto, meu amor por ti não tem-me feito bem. Involuntariamente me oprimes.
Percebo que, diante de ti sou toda incertezas. Pareço não mais saber ser feliz.
Tua felicidade radiante ofusca-me. És uma estrela mais brilhante que eu, de
simplicidade, modéstia e humildade invejáveis. Chego a odiar-te. A ti e à tua
maldita felicidade infantil, que com tão pouco se satisfaz.
Diante
de ti, não sei quem sou, o que quero, o que me apetece. Sou incapaz de assumir-me
na forma que creio ter, transfigurando-me em réplica mal feita de ti. Sinto-me,
interminavelmente, prêmio de consolação. Amo-te tanto que, em tua presença,
chego quase a querer ser-te. Dói. Machuca-me ser incapaz de assumir-me diante
de ti e de mostrar-te quem realmente sou, e que mudei. Nunca me conhecestes
deveras. Sou-te um espelho que reflete distorções.
E
quando tenho um sonho meu, só meu, que se me sai irrealizado, enquanto acontece
para ti, que nem o sonhado hás, dói-me. Foi-me infinitamente difícil assumi-lo
diante de ti, tão grande era meu medo de tua reprovação. Foi-me mais difícil
assumir, diante de mim, não ter sido capaz de realiza-lo, sendo eu a maior
repressora de mim, e incapaz de lidar com cada “mais um” fracasso. Demorei
tanto tempo tentando ser compreensiva e ter compaixão por mim... Estava
começando a aceitar-me, me dizendo não haver problemas, que tenho meus defeitos
e limitações. Que tudo tem seu tempo e, afinal, talvez não tenha sido tão
importante, já que realizei outras mais conquistas, talvez mais profundas e
duradouras.
Dói.
Dói-me ouvir-te e ver que meus monstros são em ti meras criaturas corriqueiras.
Realizastes o único sonho que não fui e nunca serei capaz de realizar. Aquele
tempo já passou. Rogo-te perdão, se sou incapaz de apoiar-te, quando como
Álvaro de Campos, tenho tanta pena de mim mesma, sem, no entanto, chegar a ser
vadia e pedinte, sem isolar-me na alma ou pedir aos dias que passem e me deixem
em seu passar. Não, não posso apoiar-te se não me sobra pena o bastante para
sentir por mim e por ti, concomitantemente.
Preciso
de distância e de tempo, embora odeie a ambos como odeio a ti. Em tua presença
sou impotente, de uma impotência indigna, de deixar de saber-me. Preciso da
distância e de parar de comparar-me a ti, lembrando-me que sou outra e também
vivo, uma vida independente da tua. Retornarei, um dia, quando puder. Quando tu
me não mais doeres, tampouco este sonho inválido que me amarga a razão.
Voltarei. Quando for outra, quando for eu.
E
ao reler estas palavras, sinto-me tola. Não pelas palavras em si, que sempre
belas são, mas pela significação que trazem ou não, expondo-me sem razão. “Tudo
menos ter razão”. Não quero agora ter razão. Quero saborear minha dor,
desfrutar meu ódio, banhar-me em ópio. Quero odiar-te, não quero ser lúcida.
Quem sabe se, odiando-te, não recupero o amor de mim? Sugo toda minha essência
para transformar-me em palavras escritas, passando a ter mais valor e significado
que o pensado ou falado flutuantes no ar. Doa o que doer.
E
dói. Dói ser uma colcha de retalhos sem par, que tem mil faces e nenhuma, não sendo
a mesma aqui ou ali. Dói sentir-me ficando para trás, pois que tu e tantos
outros já me passaram à frente. Dói o medo da decepção. Decepcionar quem?
Decepcionar. Dói em mim ser eu tão repressora e covarde, que estou ficando para
trás, estou ficando sem mim, desprovida de tempo e espaço.
Ah,
quando, por Zeus, chegará a minha vez? Já está ficando tarde, já dói a sua
ausência. E quando chegar a vez que terei, não será como tivestes, ou como a
vez que sonhei. Afinal, por que será que isso tanto importa?
Amanda Magnani
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