Estrelas dão-me
vontade de chorar. Sempre. O negro dos céus que parece tocar desde o chão que
nos carrega até o mais profundo de nossa alma, fazendo revirar-me os interiores
do que sou, encarcerando-me na pequenez pessoal de tamanha imensidão. Os
astros, ah, o brilho dos astros! Tão distantes, embora se me projetem sendo o
mais próximo que tenho de mim. Tantos pontos, tanto infinito, que chego a me
comover. Vejo-me incapaz de conter lágrimas, portadoras de tamanha complexidade.
Ah, o céu, tão
soberano senhor de todos nós. Carrega em si a imensidão do tudo e toda a nossa
pequenez. Quisera eu ser estrela, quisera ter brilho próprio, decorando também
eu o véu negro que cobre o mundo. Perco palavras diante de tal estupefata
maravilha. Afinal, o que me causam os céus? De onde vem essa emoção? Tratar-se-iam,
quem sabe, de memórias? Talvez façam parte também de mim, os mesmos átomos que
compõem a poeira cósmica. Oh, Éter, deus primordial, por que me sufocas,
fechando-me a garganta e me apertando o coração, reduzindo-me à mais impotente
insignificância de mim?
Que me perdoem
os religiosos, mas sou completamente incapaz de crer em um deus diante deste
céu estrelado. Como seria possível haver divindade superior ao brilho das
galáxias? E por que, senhores, por que razão seríamos nós, meras criaturas, minúsculas
e insignes, privilegiados por tal deus, mediante tantas belezas deste universo?
Não, não posso acreditar. Que me perdoem as religiões, mas o universo me é
maravilhosamente complexo demais para explicações mesquinhas vindas de humanos.
Humanos! Como podem esses seres microscópicos considerarem-se tão superiores ao
negro do céu que os devora?
Tem alma de
poeta o infinito. Não cabe-se inteiro dentro de si, está sempre e sempre em
expansão. E por mais belo que seja aquilo que vemos vindo dele, não passa de
uma distante exteriorização de um universo muito além daquilo que somos capazes
de imaginar. Sim, tenho sorte. Sou eu o mais feliz homem do mundo, pois tenho o
eterno como morada, e as estrelas são meus maiores bens.
Não importam
todos os transeuntes, todas as luzes das ruas. Tudo o que tenho é o céu. E ao
olhar para cima, vejo-me parte daquele todo, muito mais dele, que deste ao qual
sou obrigado a pertencer. Amo o céu. Amo-o mais que a mim mesmo, e que à
própria ideia de amar. Errantes
olham-me, com compaixão ou desprezo. Há mesmo aqueles que despejem moedas,
sensibilizados por minhas roupas rasgadas e minha feição esfaimada. Mal sabem
os passantes não ser eu o mendigo, mas eles. Pobres almas que perambulam, alheias
à riqueza maior do mundo. Pouco importam trajes ou alimentos, pois que quanto
mais o tempo passa, mais próximo estou de meu paraíso.
Aos poucos vou-me
assim tornando constelação.
Amanda Magnani
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