terça-feira, 1 de maio de 2012

Mendicância



Estrelas dão-me vontade de chorar. Sempre. O negro dos céus que parece tocar desde o chão que nos carrega até o mais profundo de nossa alma, fazendo revirar-me os interiores do que sou, encarcerando-me na pequenez pessoal de tamanha imensidão. Os astros, ah, o brilho dos astros! Tão distantes, embora se me projetem sendo o mais próximo que tenho de mim. Tantos pontos, tanto infinito, que chego a me comover. Vejo-me incapaz de conter lágrimas, portadoras de tamanha complexidade.
Ah, o céu, tão soberano senhor de todos nós. Carrega em si a imensidão do tudo e toda a nossa pequenez. Quisera eu ser estrela, quisera ter brilho próprio, decorando também eu o véu negro que cobre o mundo. Perco palavras diante de tal estupefata maravilha. Afinal, o que me causam os céus? De onde vem essa emoção? Tratar-se-iam, quem sabe, de memórias? Talvez façam parte também de mim, os mesmos átomos que compõem a poeira cósmica. Oh, Éter, deus primordial, por que me sufocas, fechando-me a garganta e me apertando o coração, reduzindo-me à mais impotente insignificância de mim?
Que me perdoem os religiosos, mas sou completamente incapaz de crer em um deus diante deste céu estrelado. Como seria possível haver divindade superior ao brilho das galáxias? E por que, senhores, por que razão seríamos nós, meras criaturas, minúsculas e insignes, privilegiados por tal deus, mediante tantas belezas deste universo? Não, não posso acreditar. Que me perdoem as religiões, mas o universo me é maravilhosamente complexo demais para explicações mesquinhas vindas de humanos. Humanos! Como podem esses seres microscópicos considerarem-se tão superiores ao negro do céu que os devora?
Tem alma de poeta o infinito. Não cabe-se inteiro dentro de si, está sempre e sempre em expansão. E por mais belo que seja aquilo que vemos vindo dele, não passa de uma distante exteriorização de um universo muito além daquilo que somos capazes de imaginar. Sim, tenho sorte. Sou eu o mais feliz homem do mundo, pois tenho o eterno como morada, e as estrelas são meus maiores bens.
Não importam todos os transeuntes, todas as luzes das ruas. Tudo o que tenho é o céu. E ao olhar para cima, vejo-me parte daquele todo, muito mais dele, que deste ao qual sou obrigado a pertencer. Amo o céu. Amo-o mais que a mim mesmo, e que à própria ideia de amar.  Errantes olham-me, com compaixão ou desprezo. Há mesmo aqueles que despejem moedas, sensibilizados por minhas roupas rasgadas e minha feição esfaimada. Mal sabem os passantes não ser eu o mendigo, mas eles. Pobres almas que perambulam, alheias à riqueza maior do mundo. Pouco importam trajes ou alimentos, pois que quanto mais o tempo passa, mais próximo estou de meu paraíso.
Aos poucos vou-me assim tornando constelação.

                                                                                                                            Amanda Magnani 

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