quarta-feira, 24 de abril de 2013

Vila Viçosa


Tenho andado a pensar que
Fora eu conterrânea de Florbela,
Não seria jamais quem sou.
Fora eu conterrânea de Espanca,
Espancar-me-ia em mim o coração,
Tomando para si o lugar do bater.
Fora eu conterrânea de Florbela,
Não seria jamais quem sou.
Seria apaixonada.
Senão pelos homens,
Pelas mulheres,
Pelas flores,
Pelos cheiros,
Pelas cores.
Fora eu conterrânea de Florbela,
Seria tal qual ela,
Amaria sempre, e mais
E mais.
Ah, sim, fora eu conterrânea de Florbela,
Jamais seria: estaria.
Seria volátil em meus amores,
E quando não mais amasse,
Ainda assim amaria.
Fora eu conterrânea de Florbela,
Seria a rua quem me caminharia.
Morreria a cada dor,
E cada cinza de qualquer amor,
Bastaria para renascer.
Fora eu conterrânea de Florbela,
Mas não sou.
E sendo assim, não posso sê-la,
Estando então fadada a ser-me.
E sendo assim, não sei se ser.
E mesmo me sendo, amo.
E sofro sim, sem amargor.
Pois que com fogo e com ardor,
Se não posso ser Florbela,
Vejo a vida em flores,
Penso a vida bela.
E se não posso sê-la ainda assim serei,
Mesmo não sendo eu
A conterrânea de Florbela.

                                                                                Amanda Magnani

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