sexta-feira, 14 de junho de 2013

Vinte Centavos

Amanda Magnani


Atenção, senhoras e senhores! Respeitável público! O tsunami alcançou as terras brasileiras: ou você entra na onda, ou morrerá afogado! E fique atento, pois se Deus é realmente brasileiro, a ressaca dessa maresia há de ser das mais brabas! Já deu em todos os jornais: o Brasil não está mais para alugar!
                Não, senhoras e senhores, o espetáculo circense ao qual nossa hipocrisia assiste do lado de cá da tela da TV não é um protesto de vândalos esquerdistas que se revoltaram por um aumento de vinte centavos no valor da passagem de ônibus. Não, caro Jabor, esses revoltosos não valem vinte centavos. Valem vinte milhões, ao contrário do que se fez valer a vossa senhoria após tal comentário.
                Caros jornalistas profissionais, onde está a dificuldade em entender? Essa onda de manifestações (que pretendiam ser pacíficas, diga-se de passagem) não é a respeito de vinte centavos. É a respeito da gota d’água. É a respeito de um país que chegou a ser a sexta economia mundial e hoje tem um crescimento econômico minúsculo, em comparação a uma inflação altíssima. É a respeito de uma população que paga uma das cargas tributárias mais altas do mundo, para sustentar os bolsos de políticos que afirmam em alto e bom som que um tomatinho não vai interferir na inflação nacional. É a respeito de políticos corruptos que riem das nossas caras. Ah, sim, meu respeitável público: eles riem da cara de cada um de vocês que é contra manifestações que atuam a seu favor. Eles riem da cara de cada um de vocês que se deixam rebanhar como ovelhas por um pastor que é mais sanguinário que o lobo mau. Essa onda crescente de manifestações é a respeito do brasileiro mostrando ao mundo que não é um povo passivo. É a respeito do brasileiro mostrando que se cansou. Não é sobre vinte centavos.

                Esse é o brasileiro mostrando que é um povo heroico, e principalmente, que o seu brado é retumbante. É a independência ou morte. É revolução e progresso. Talvez, então, seja hora de mudarmos a regência verbal, e começarmos a assistir as manifestações, sem crase. Porque se você vai ficar aí sentado, eu, meu amigo, pretendo ir à luta! 

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