quarta-feira, 18 de abril de 2012

Sombra Fresca




                Fazia tempo que não ia àquele lugar. Meu esconderijo secreto de infância, onde sentia-me dentro da mais segura base militar, longe de medos e problemas, ou de qualquer coisa que pudesse me afligir. Mesmo a céu aberto, estava protegida. Aquele era meu ninho, onde comecei a voar.
                 Desde a morte de meu amado, vivo ainda para muitos, mas já distante demais de mim, não havia saído daquela cidade de sombras, em direção a um lugar mais afastado, para estar só, em minha própria companhia. Não sei por que agora, assim como não sei por que exatamente aqui.
                Nada mudou. Ainda permanece deitada ao chão minha velha bicicleta, desde o dia em que caí, minha fonte de equilíbrio. Ainda tenho as cicatrizes. Marcas eternas deixadas em meu coração. Aquele reino era só meu, e me traístes, meu amor, quando por fraqueza da alma deixei-te entrar.
                Sinto-me novamente aquela criança indefesa que era quando me encontrastes. Com medo, sem rumo na vida. Joelhos ralados, cobertos da poeira da estrada da minha vida. Lágrimas inocentes salgando minha boca. Hoje, talvez, já não serias tão mais velho que eu.
                Sento-me agora, ao pé da árvore mãe, fonte única de sombra fresca. Desde então, nunca voltei a voar. Por onde andarás, meu amor, e por onde andarei? Teu sorriso ofuscou-me os olhos da alma e desde então não sei quem sou.
                Talvez por isso esteja aqui. Para encontrar minhas raízes e livrar-me de ti. Se os mesmos pássaros já não cantam, assobia ainda a mesma brisa morna ao pé de meus ouvidos. O cheiro acre daquela terra nunca morrerá. Meu pequeno reino dos céus.
                E sem que eu tenha consciência disso, vou-me embalando em um sono leve de sonhos disformes. Sonhei que havíamos crescido amado, e que tinhas me deixado. Sonhei não passar de sonho o fato de estares a meu lado.


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